quinta-feira, 20 de março de 2025

Atendimento em Emergência: quando o caminho não é óbvio

José Roberto Goldim

A tomada de decisão em assistência à saúde é sempre um desafio, tanto pela frequência com que os profissionais são obrigados a fazer escolhas, quanto pela magnitude das escolhas em si, que lidam com a vida e o viver das pessoas. A Bioética é um campo interdisciplinar que pode auxiliar na reflexão sobre as escolhas que deverão ser realizadas (1).


É sempre importante discutir o significado das palavras, pois dele decorre a comunicação efetiva. Quanto mais preciso for o seu entendimento e uso, melhor a compreensão de todos os envolvidos.


Emergência é derivada da palavra latina emergentia, formada igualmente pela associação de duas outras palavras e associada a mergere. É uma palavra que remonta a 1535. E é sair, é para fora, enquanto que mergere é afundar (2). Emergência é trazer à luz, é aparecer, é algo que não estava pré-programado (3). 


Emergência é muitas vezes confundida com Urgência. Urgência surge em 1652, a partir do verbo latino urgere, que significa apertar, comprimir ou impelir (2). Muitos serviços hospitalares usam estas duas palavras de forma indistinta.


Urgência é uma ameaça em futuro próximo, enquanto que na Emergência a ameaça é imediata. A Urgência ainda admite alguma possibilidade, mas a Emergência é uma necessidade imposta.


Nas situações de emergência, o profissional de saúde é considerado como garantidor, tem o dever de agir no melhor interesse do paciente. Quando um paciente chega ou é trazido para atendimento em uma situação considerada como de emergência, os profissionais que atuam nestes setores devem agir no sentido de atender aos melhores interesses do paciente (4).


Caminho pode ser entendido como curso ou percurso de ação. Caminho vem de cursum, em Latim, no sentido de trajeto, de fluxo estabelecido ou de uma sequência regular de eventos ou procedimentos. Percurso, por outro lado, formado por per e cursum, é mais dinâmico, ao atentar aos detalhes do caminho, ao interpretar os sinais que estão ali presentes. Em resuno, curso é uma perspectiva mais linear, enquanto percurso é integrado e experiencial (5, 6).


A questão do caminho não ser óbvio merece uma discussão quanto à sua repercussão. Óbvio vem de uma palavra também do Latim, que surge da associação de duas outras  palavras: ob e via. Ob é a indicação de ir à frente e via é o caminho. A primeira utilização desta palavra data de 1836. Óbvio pode ser entendido como aquilo que é evidente, que se apresenta. Ou ainda, o que é possível de ser compreendido por intuição. Óbvio é aquilo que nunca é visto, até que alguém o expresse de forma simples (7). O caminho óbvio se associa mais a noção de curso do que de percurso.


Falar no óbvio em escolhas de caminhos nas situações de emergência é uma tarefa importante e necessária. Quando o caminho não é óbvio, no sentido de não haver um consenso na decisão associada às ações, é necessário fazer uma reflexão para verificar o que está ocorrendo, verificar as alternativas disponíveis e avaliar as repercussões associadas a cada uma delas. A reflexão ocorre em vários níveis (8)

 

A reflexão mais simples é a Instrumental, que se questiona sobre o como fazer. É a etapa que permite verificar quais as habilidades e técnicas são necessárias e a capacitação necessária para realizá-las.


A etapa seguinte é a Reflexão Descritiva, quando são avaliadas as boas práticas associadas ao como fazer. O foco desta reflexão é o desempenho da ação.


Quando o “que fazer” e o “como fazer” estão discutidos, é a Reflexão Dialógica que permite discutir as alternativas de ação. É o momento de trocar estas informações com outras pessoas. É uma etapa de compartilhamento e de deliberação, com ênfase na avaliação das alternativas de ação presentes. 


O patamar seguinte é o da Reflexão Crítica, quando a pergunta associada é “por que fazer?” É o momento da avaliação das perspectivas e repercussões associadas, que permitem elaborar as justificativas para a ação.


Finalmente, vem a Reflexão Complexa que avalia as relações existentes entre os elementos presentes nesta situação. É uma reflexão que tem como características principais o reconhecimento da integração e da interdependência entre todos os elementos que estão presentes na situação.


Quando o caminho não é óbvio, é fundamental refletir. Mesmo os caminhos óbvios devem ser objeto de reflexão.  O  que é certo nem sempre é óbvio e o que é óbvio nem sempre é certo (7).


Ao refletir, desde o ponto de vista da Bioética, buscamos a adequação, mais do que encontrar o que é certo ou errado. A adequação depende das circunstâncias associadas aos fatos, e pode ser entendida como a consistência e a coerência em nossas escolhas e ações (9). Ter clareza nas escolhas, ter justificativas técnicas e éticas para agir de modo adequado é fundamental ao exercício profissional.

Desta forma, o importante é refletir e agir de forma adequada. Nas situações de atendimentos de emergência, onde nos deparamos com o inesperado, uma circunstância sempre presente é a premência de tempo e o dever de agir do profissional. Uma virtude inseparável do profissional que atua na área de emergências é a prontidão. Quando o caminho não é óbvio, a atuação exige, não um seguimento de um curso pré-estabelecido, mas sim a reflexão sobre qual o percurso mais adequado.


Referências

1) Goldim JR. Bioética: Origens e Complexidade. Rev HCPA [Internet]. 2006;26(2):86–92. https://www.ufrgs.br/bioetica/complex.pdf


2). Houaiss A, Villar M de S, Franco FM de M. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. 1st ed. Rio de Janeiro: Objetiva; 2001.


3) Cirne-Lima CR. Carlos Roberto Cirne-Lima - Obra Completa Livro III Filosofia como Sistema: O Núcleo. Porto Alegre: Escritos; 2017. https://carloscirnelima.org/site_2020/pdf/livroIII_ebook.pdf


4)  Souza PVS de. O médico e o dever legal de cuidar: algumas considerações jurídico-penais. Rev Bioética. 2006;14(2):229–38. https://revistabioetica.cfm.org.br/revista_bioetica/article/download/24/27/79


5) Certeau M de. Invenção do cotidiano Vol. 1 Artes de Fazer. Petrópolis: Vozes; 2017.

https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/1363


6) Deleuze G, Guattari F. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34; 1995.


7) Estas frases são atribuídas a inúmeros autores, como Albert Einstein, por exemplo, mas não constam em qualquer uma de suas obras.


8) Hatton N, Smith D. Reflection in teacher education: Towards definition and implementation. Vol. 11, Teaching and Teacher Education. 1995. p. 33–49. 

https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/0742051X9400012U


9) Spinoza B de. Ética. 3ed. Belo Horizonte: Autêntica; 2007. 

https://archive.org/details/SPINOZABaruchDe.Etica/page/n5/mode/2up


Observação Este texto é referente à apresentação em mesa redonda na 4ª Jornada Latino-Americana de Emergências Pediátricas, Hospital de Clínicas de Porto Alegre, 22/03/2025.


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