José Roberto Goldim
Desde a década de 1950, a Igreja Católica tem se manifestado sobre temas envolvendo cuidados paliativos e as questões de fim de vida. Muitas destas manifestações ocorreram quando da participação de um Papa em congressos e reuniões médicas.
Os documentos da Igreja Católica, incluindo o seu Catecismo, tem uma força moral muito importante que ultrapassa os limites da comunidade católica. Um posicionamento de um Papa tem uma repercussão que passa a servir como um referencial teórico moral para a Bioética como um todo. Inúmeras outras lideranças de diferentes religiões e outros grupos laicos se baseiam nestes documentos para justificarem as suas reflexões sobre a adequação ou não de determinadas situações envolvendo pacientes em cuidados paliativos.
O Papa Pio XII, se manifestou aos médicos em um congresso realizado em 1957 sobre temas de cuidados paliativos, ainda sem citar esta denominação que ainda não havia sido proposta. É importante lembrar que na década de 1950quele período estavam surgindo inúmeras terapias de suporte, como a diálise e a ventilação mecânica, que estavam sendo utilizadas na novas unidades de terapia intensiva. O Papa Pio XII afirmou que:
...não há obrigação de empregar sempre todos os meios terapêuticos potencialmente disponíveis e que, em casos bem determinados, é lícito abster-se deles (1).
O Papa Paulo VI, ao fazer um discurso em 1970 à Federação Internacional das Associações Médicas Católicas fez uma importante declaração sobre a prática médica. Os novos tratamentos estavam possibilitando um prolongamento da vida, com foco na simples sobrevivência. Estas novas possibilidades propiciaram a ocorrência de situações de obstinação terapêutica. O Papa Paulo VI fez um chamamento para a discussão sobre a proporcionalidade das ações:
O dever do médico consiste, antes, em procurar aliviar o sofrimento, em vez de prolongar o máximo possível, por quaisquer meios e em quaisquer condições, uma vida que se aproxima naturalmente do seu fim (2).
Nem tudo que é tecnicamente possível, é moralmente aceitável (3).
Para estabelecer se uma intervenção médica clinicamente apropriada é efetivamente proporcional, não é suficiente aplicar, de modo mecânico, uma regra geral. É preciso um atento discernimento, que considere o objeto moral, as circunstâncias e as intenções dos sujeitos envolvidos (4).
Para suprimir totalmente a dor, seria necessário, no fundo, extinguir também o amor e o desejo (5).
2278. A cessação de tratamentos médicos onerosos, perigosos, extraordinários ou desproporcionados aos resultados esperados, pode ser legítima. É a rejeição do «encarniçamento terapêutico». Não que assim se pretenda dar a morte; simplesmente se aceita o facto de a não poder impedir. As decisões devem ser tomadas pelo paciente se para isso tiver competência e capacidade; de contrário, por quem para tal tenha direitos legais, respeitando sempre a vontade razoável e os interesses legítimos do paciente.
2279. Mesmo que a morte seja considerada iminente, os cuidados habitualmente devidos a uma pessoa doente não podem ser legitimamente interrompidos. O uso dos analgésicos para aliviar os sofrimentos do moribundo, mesmo correndo-se o risco de abreviar os seus dias, pode ser moralmente conforme com a dignidade humana, se a morte não for querida, nem como fim nem como meio, mas somente prevista e tolerada como inevitável. Os cuidados paliativos constituem uma forma excepcional da caridade desinteressada; a esse título, devem ser encorajados.
- Pope Pius XII. Adstantibus multis honorabilibus Viri s ac praeclaris Medicis et Studiosis, quorum plerique Nosocomiis praesunt vel in magnis Lyceis docent, qui Romam convenerant invitatu et arcessitu Instituti Genetici « Gregorio Mendel », Summus Pontifex propositis qua. Acta Apostolicae Sedis 1957;XXXXiX(XXIV):1027–33.
- Vatican Statements at Foundation of End of Life Care Positions
https://txcatholic.org/magisterial-teaching-on-end-of-life-issues/ - Papa João Paulo II. Donum Vitae: Instrução sobre o Respeito à Vida Humana Nascente e a Dignidade da Procriação. Vaticano; 1987.
- Papa Francisco. Encontro Regional Europeu da World Medical Association. L’Osservatore Romano 17/11/2017.
- Papa Leão XIV. Carta Encíclica Magnifica Humanitas do Santo Padre Leão XIV sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial. Vaticano: Vaticano; 2026.
- Catecismo da igreja católica. 6th ed. Petrópolis: Vozes; 1993: